
Por carisma entendemos um peculiar dom oferecido por Deus a uma pessoa com a finalidade de «produzir nela uma determinada capacidade que a torne apta para iluminar novas comunidades de Vida Consagrada na Igreja». É precisamente este dom especial do Espírito que origina, através da moção mediada pelo fundador, uma forma específica de viver e anunciar a Verdade revelada em e por Jesus Cristo que, em muitas ocasiões, se plasma numa Regula vitae. Assim sendo, a Ordem de Santo Agostinho recebe o seu carisma próprio da experiência vital e transformadora que de Cristo faz o Bispo de Hipona, pela ação do Espírito de Deus, após um longo e turbulento processo de conversão.
Cabe, então, perguntar-se: que dom espiritual é este que Agostinho recebe de Deus e que, constituindo um impulso dinâmico, «se desdobra continuamente em harmonia com o Corpo de Cristo em constante crescimento»? A amizade ou, em palavras do hiponense, a «amizade verdadeira». Com efeito, ao longo da sua vida, a amizade desempenhou na vida de Agostinho um papel fundamental, tanto antes da sua conversão como depois e, muito particularmente, no cunho que procura imprimir na sua comunidade de monges. Fascinavam-lhe os grandes clássicos da antiguidade que sobre o tema esboçaram alguma concepção particular, nomeadamente Platão, Aristóteles, Séneca, Ovídio, Horácio ou Cícero, por quem Agostinho teve uma predileção especial e a quem parafraseia em vários escritos completando ao seu modo. Cícero acunha várias definições lapidares e intemporais de amizade. Sirvam-nos alguns exemplos elucidativos: «o amigo é outro eu»; «é aquele cuja alma se faz uma com a do amigo»; «a amizade é a melhor prenda dos deuses»; e, sobretudo, a amizade é «um acordo benevolente e amoroso em todos os assuntos divinos e humanos». Será portanto a amizade, qualidade humana considerada basilar e necessária desde antanho, o centro nevrálgico do carisma fundacional agostiniano, já que «podem haver qualidades que sejam propriedade do sujeito e que se convertam em carisma, quando assumidas pelo Espírito para actuar através delas».
Para além de reconhecer nas suas Confissões que «sem amigos não podia ser feliz», afirmação esta que unida às muitíssimas outras alusões nos seus escritos nos permite entender que a amizade constituiu sempre uma das suas coordenadas vitais, Agostinho eleva esta categoria à sua máxima expressão quando unida à Verdade que é Jesus Cristo: «amizade verdadeira». Com efeito, a amizade que ele próprio havia experimentado durante os albores da adolescência fizeram-no entender, depois da conversão, que quando este sentimento e qualidade não se alia a um crescimento sério e sustentado no amor honesto a Deus, a si mesmo e aos demais, pode desembocar na maldade e perversão.
Alimentada pelo instinto passional próprio da puberdade —ou do infantilismo—, a amicitia inimica procura a aceitação num determinado grupo ou contexto sem demasiadas perguntas ou inquietações, e pode inclusive prescindir da reta direção. Ainda assim, Agostinho reconhece um valor inestimável nas relações amistosas que estabeleceu ao longo da sua adolescência e juventude porque, apesar de mais tarde as reconhecer como incompletas (frente à vera amicitia), criam as raízes necessárias na profundidade do coração humano para que o Espírito Santo derrame o seu amor no coração dos amigos. Por outras palavras, a amizade estritamente humana —por dizê-lo de alguma forma— dispõe o coração do homem para a vera amicitia. Com efeito, há um momento de catarse na juventude de Agostinho que, quando se propõe revisitar o seu passado à luz de Deus, o «obriga» a dissertar e plasmar com a pluma a categoria que nos ocupa e os seus vários graus, cunhando a expressão que temos vindo a reiterar como original.
Como ocorre com todos os fundadores, o carisma recebido como dom pelo Espírito de Deus converte-se em chave de leitura da Verdade revelada e em faceta essencial da pessoa humano-divina de Jesus Cristo: o «Jesus Cristo orante» para São Bento de Nursia, o «Jesus Cristo pobre» para São Francisco de Assis, e um longo etc.. No caso de Santo Agostinho, esta faceta será sem dúvida a do «Jesus Cristo amigo». Bastará recordar que, por um lado, o próprio Jesus Cristo elevou a amizade ao grau máximo da caridade ao afirmar que «ninguém tem amor maior do que quem dá a vida pelos seus amigos» (Jo 15,13) e que, por outro, assim chamou aos discípulos, «vós sereis meus amigos se fizerdes o que vos mando» (Jo 15,14). Desde uma compreensão conjunta de ambos os versículos, torna-se evidente que aquele que vive o amor maior ao dar a vida pelos seus amigos é o Deus humanado que, como amigo, se entrega à morte pela salvação dos que ama. Desde esta perspectiva é possível entender a razão pela qual a Regula ad servos Dei —isto é, o documento que Santo Agostinho entrega às suas comunidades monásticas a modo de «folha de coordenadas» com as linhas principais do modo de viver que propõe— se inicia precisamente com uma exposição do carisma que a sustenta (a vera amicitia), exposição esta inspirada por igual «nas fórmulas dos velhos pensadores greco-romanos e nos Atos dos Apóstolos». É sem dúvida este escrito —certamente iluminado e ampliado por todo o corpus scriptorum de Agostinho— a base essencial da espiritualidade que viveram e vivem os que se sentem seus discípulos no modo peculiar de seguir a Jesus Cristo.
“Em primeiro lugar —já que com este fim vos congregastes em comunidade—, vivei unânimes na casa e tende uma só alma e um só coração orientados para Deus. E não considereis nada como próprio, senão que tudo vos seja comum (…). Já que assim o ledes nos Atos dos Apóstolos: tinham todas as coisas em comum e tudo se distribuía segundo a necessidade de cada um.”
Estas palavras iniciais da Regra constituem por si mesmas a apresentação do projeto que norteia a espiritualidade agostiniana, alicerçado na verdadeira amizade e experimentado na vida comum. De facto, os precepta que encontramos neste prelúdio reúnem várias definições de amizade do mundo clássico greco-romano, como «viver unidos na casa», «ter uma só alma e um só coração» ou inclusive «possuir tudo em comum». A originalidade de Agostinho estriba, por um lado, em tê-las reunido como que numa única e completíssima definição de amizade, e, por outro, em elevá-las ao status de «primum propter quod» do estilo de vida que propõe aos seus discípulos, ou seja, característica essencial do carisma recebido do Espírito de Deus e convertido em núcleo do ordo por ele fundado.
Se a verdadeira amizade, vivida por Santo Agostinho como carisma, só se alcança quando unida à Verdade que é o Verbo Encarnado, torna-se relativamente fácil de compreender que Cristo se «converta» para o Santo no «lugar» onde a comunhão dos irmãos se faz realidade objetiva. Assim, para que as almas de todos os monges cheguem a ser uma única alma («anima una»), requer-se que cada um renuncie previamente à sua própria alma em favor dos demais. «Desta maneira, a tua alma não é própria tua, senão de todos os irmãos, e as suas almas são tuas; ou, melhor ainda, as suas almas e a tua não são várias almas, mas antes uma única alma, a única alma de Cristo». A única alma de Cristo aúna em si todas as almas. O substrato teológico deste preceito da Regra é a doutrina do Cristo total (Christus totus), tão importante como conhecida na teologia do hiponense. Sendo Jesus Cristo o Deus feito homem que, pelo batismo, incorporou em si todos os demais homens, quem pelo batismo se torna membro do seu corpo passa a formar parte da comunhão real e profunda com todos os que por Cristo foram incorporados. Assim, «quem está em comunhão com Cristo não pode não estar em comunhão com quantos estão igualmente incorporados a Ele; e, pelo contrário, quem não está em comunhão com quantos estão incorporados a Cristo não pode estar em comunhão com Ele».