Do carisma fundacional, unido a outras qualidades e ensinamentos do fundador, brota a espiritualidade própria da Ordem de Santo Agostinho que, por sua vez, se compõe de várias atitudes, costumes e particularidades que nos propomos desenvolver nos seguintes sub-apartados e que conformam a vida dos frades agostinhos em Portugal —e no mundo— nos nossos dias. Cabe sublinhar que tanto o carisma agostiniano como a espiritualidade que dele advém têm adquirido ao longo dos tempos novas interpretações e concreções práticas. Em primeiro lugar, porque os próprios avatares da história exigem um aggiornamento dos costumes já que, do contrário, a espiritualidade —seja ela qual for— perderia o seu caráter testemunhal e congregante ao dirigir-se sob código um de linguagem (verbal e não verbal) um tanto anacrónico a um mundo que, sedento de Deus, não é capaz de o entender. E em segundo lugar, porque o que inicialmente foi pensado e projetado exclusivamente para a «vida monástica» é agora —ou pelo menos deve ser no espírito do Vaticano II— dado a participar a todo o «poliédrico» e não «esférico» povo de Deus (multi vocacional e ministerial) como caminho de santificação e plenitude. Por conseguinte, os rasgos específicos da espiritualidade agostiniana que seguidamente elencamos têm sido —e assim o são nos nossos dias— partilhados e vividos não só pelos padres agostinhos mas também por muitos laicos, crianças, jovens, adultos e famílias, com as naturais matizações próprias segundo os estados de vida e os condicionalismos pessoais de cada um.
A espiritualidade da Ordem, cujos elementos principais aqui se apresentam, procede do seguimento de Cristo segundo os preceitos (conselhos) evangélicos e da ação do Espírito Santo. Tem como principal ponto de referência o exemplo de Santo Agostinho e a própria tradição da Ordem. O código fundamental desta espiritualidade é a Regra, que deve reger a nossa vida e atividade. A espiritualidade agostiniana, desenvolvida através da História e enriquecida pelo exemplo e a doutrina dos nossos antepassados, deve viver-se em conformidade com as circunstâncias de tempo, lugar e cultura, em consonância com o carisma da Ordem.
Procura de Deus e interioridade
Ao contemplar o testemunho dado por São Lucas nos Atos dos Apóstolos acerca da primeira comunidade cristã — que Agostinho encontra condensado na afirmação «a multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma» (At 4,32) — e ao incorporá-lo ao prelúdio da sua Regra, o Doutor da Graça acrescenta à sentença neotestamentária a expressão in Deum, «em direção a Deus, orientado para Deus», frequente —ainda que não constante— nos seus escritos. Para uma melhor compreensão desta adição cunhada por Agostinho, será proveitoso esclarecer, ainda que brevemente, o uso da preposição latina in em vez de ad. Ao dissertar acerca da teologia da graça, Agostinho declara que, sem o auxílio da graça divina, o homem não pode converter-se a Deus (ad Deum) nem avançar em Deus (proficere in Deum). A diferença estriba em que a primeira ação —converter-se a Deus (ad Deum)— implica uma simples aproximação por parte de quem se encontra longe, enquanto que avançar em Deus (in Deum) implica adentrar-se n’Ele, penetrar no seu Mistério. «Não é o mesmo conhecer a casa onde vive a pessoa que procuramos e cumprimentá-la de passagem no limiar da porta, do que ser admitido na casa e conviver ali com o seu proprietário». Em consequência, a expressão in Deum que se une à divisa lucana «um só coração e uma só alma» não deve ser entendida como a audaz busca de um desconhecido, mas sim como procura de um Deus que se desvela como e por amor adentrando-se em si mesmo, vivendo n’Ele e com Ele, experimentando o seu amor de Pai e devolvendo-lhe o justo amor de filho. A procura de Deus é, por conseguinte, apresentada por Agostinho como basilar no estilo de vida cristã que propõe. Esta busca torna-se o eixo nevrálgico da comunidade agostiniana em tanto que todos os irmãos, na singularidade de cada um, abraçam este mesmo projeto através do método proposto e vivido pelo fundador: a interioridade e vida de oração. Depois de várias e tortuosas estratégias para encontrar a tão ansiada Verdade, Agostinho encontra-a (Cristo Verdade) em si mesmo, «interior intimo meo et superior summo meo». São sobejamente conhecidas as palavras do santo:
Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Eis que habitáveis dentro de mim, e eu lá fora a procurar-Vos! Disforme como era, lançava-me sobre estas formosuras que criastes. Estáveis comigo mas eu não estava convosco! Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria se não existisse em Vós. Porém, chamastes-me com uma voz tão forte que rompestes a minha surdez! Brilhastes, cintilastes e logo afugentastes a minha cegueira! Exalastes o vosso perfume: respirei-o, suspirando por Vós. Saboreei-Vos e agora tenho fome e sede de Vós. Tocastes-me e ardi no desejo da vossa paz.
Assim sendo, o caminho indigitado por Agostinho aos monges é o itinerário que ele mesmo empreendeu, voltando-se sobre si mesmo e regressando ao interior do coração, método por ele herdado e aperfeiçoado da tradição filosófica. «Não queiras derramar-te fora —adverte o hiponense—, entra dentro de ti mesmo porque no homem interior habita a verdade. E se encontrares que a tua natureza é mutável, transcende-te a ti mesmo». E noutra passagem: «Voltai, pois, ao vosso interior e, se sois fiéis, ali encontrareis Cristo. É Ele quem ali vos fala. Eu grito, mas Ele ensina mais com o seu silêncio do que eu ao falar». A insistência em procurar dentro é constante no acervo literário do Bispo de Hipona. É «dentro» onde se encontra a verdade, a luz, a alegria, o próprio Cristo. No recôndito silente da interioridade estabelece-se a relação profunda e amorosa entre criatura e Criador-Amante, redimido e Redentor-Amado, santificado e Santificador-Amor. Através do caminho da interioridade se adquire, portanto, o conhecimento e o amor de Deus e d’Ele o homem é feito partícipe. A luz do Mestre interior ilumina a realidade temporal e torna possível a contemplação ao estilo de Agostinho, «que descobre no homem a imagem de Deus, na Igreja o Cristo total, na história a esperança de tornar à paz da pátria». Podemos destacar quatro etapas neste caminho interior: (1) «não queiras derramar-te fora», trata-se da mística do desapego, isto é, libertar-se da tendência de ser um puro eco dos estímulos exteriores; (2) «entra dentro de ti mesmo», procurar a respectiva consistência e ser fiel à autenticidade própria através do auto-conhecimento e aceitação pessoais; (3) «transcende-te a ti mesmo», remontar-se ao que de mais nobre existe no ser humano e aí descobrir a fonte da qual procede quanto de bom, verdadeiro e valioso há no coração do homem, Deus; (4) «viver a exterioridade desde a interioridade», ou seja, impregnar de sentido e da luz encontrada «dentro» cada detalhe da vida concreta que se desenha fora. Neste curso de retorno ao coração, a prática da oração ocupa um lugar privilegiado e indeclinável, tanto na sua dimensão comunitária (especialmente litúrgica) —marcada na rotina diária da comunidade—, como privada ou pessoal, fora das horas estipuladas. O consagrado entrega-se de modo total a Deus, por forma que todos os seus atos brotam deste encontro e alcançam nele a sua razão de ser. Na concepção de Santo Agostinho, a oração brota da interioridade, sustenta-se numa ineludível vinculação cristológica e eclesiológica, abre-se ao compromisso e à participação na tarefa evangelizadora, e projeta-nos à transcendência. Também nos tempos hodiernos, os agostinhos assumem a procura in Deum pelo caminho da interioridade e da vida de oração como prioridade ineludível, sem o qual se frustram de conteúdo e testemunho quaisquer atividades assumidas. O equilíbrio entre a contemplação e o compromisso ativo é condição necessária para viver em plenitude o Evangelho ao estilo do Bispo de Hipona, sendo ativos na contemplação e contemplativos na ação.
Comunhão de vida
Todos os aspectos da espiritualidade agostiniana estão, naturalmente, interligados entre si e se constituem como interdependentes. A expressão in Deum aparece precedida do preceito «anima una et cor unum». À luz do Evangelho, a interioridade ou a vida oração não encontrarão fecundidade se não se apoiam no amor mútuo: «se fores, portanto, apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois, volta para apresentar a tua oferta» (Mt 5,23-24); «Se alguém disser: ‘Eu amo a Deus’, mas tiver ódio ao seu irmão, esse é um mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê» (1 Jo 4, 20). A vida em comum, entendida por Agostinho como antecipo da união plena e definitiva em Deus e caminho dirigido à conformação do Christus totus, «é o eixo em torno ao qual gira a vida religiosa agostiniana: comunidade de Irmãos que vivem unânimes na casa, tendo uma só alma e um só coração, procurando juntos a Deus e dispostos ao serviço da Igreja». Desta forma, a comunidade e todos os seus membros partilham a inquietude pela busca de Deus, e colocam em comum tantos os bens espirituais como materiais.
A abordagem que faz Agostinho da comunhão de vida, ainda que apoiada no modelo cenobítico antigo, é marcadamente diferente de todos os fundadores que o precederam. Para o hiponense, cada aspecto da vida comum é em si mesmo um exercício ascético, uma vez que a comunhão vivida na casa pretende renovar as autênticas relações humanas inspiradas na humildade e no serviço, e não no poder. Tendo como base a verdadeira amizade, que nasce e cresce na relação estreita e profunda de todos e cada um com Cristo, a comunidade agostiniana adquire a conotação de «lugar teológico», isto é, lugar de encontro com Deus e de expressão e celebração da fé que sustenta a vida. Com efeito, cada pessoa é em si mesma lugar teológico já que, pela infinita misericórdia de Deus e o seu projeto de amor e salvação, é possível encontrá-Lo na pessoa do irmão (especialmente do mais pobre e afligido). E é precisamente no irmão onde cada discípulo de Agostinho é convocado a honrar o Senhor: «honrai a Deus uns nos outros, de quem fostes feitos templos». Em estreita coerência com esta apelação, segundo a qual o seguimento de Cristo se faz tangível na proximidade, partilha e solicitude para com os outros, Agostinho sublinha ainda duas características medulares no projeto de vida em comum que delineia: a humildade e a pobreza.
Em virtude da pobreza e da humildade, consideramos todos os nossos bens —materiais e espirituais— como bens de todos, porque não os temos como próprios, mas antes como concedidos por Deus para a sua administração. (…) Assim pois, usemos os bens da terra como meios enquanto peregrinamos em direção à pátria, sob a guia da mesma caridade, que se manifesta, em primeiro lugar, na justiça. Deste modo, a pobreza —tanto individual com comunitária— e a humildade aparecem como sinal da unidade de caridade que faz da nossa família religiosa o templo de Deus, que todos devemos honrar, porque «não somos templo de Deus apenas cada um, senão que o somos também todos juntos».
No que respeita a este particular da espiritualidade agostiniana, a perfeição de vida manifesta-se pela preponderância dada às coisas comuns em detrimento das próprias. Sob o lema «não tenhas nada ao qual possas chamar teu, e tudo será teu; se te aderires a uma parte, perdes a totalidade», entende-se que a vivência da pobreza evangélica ao estilo agostiniano estriba precisamente na comunhão integral de todos os bens, com vistas ao bem comum, e no acutilante compromisso para com os mais pobres que implica tornar própria a dor alheia. Com efeito, «Cristo está necessitado quando o está um pobre» e, portanto, quando se socorre a um necessitado, exercita-se a comunhão eclesial já que «um membro de Cristo dá a outro membro de Cristo». Por outro lado, e em consonância com o já enunciado, qualquer atividade levada a cabo por um dos membros da «santa sociedade» deve ser encarada como partindo da comunidade e para bem da mesma. Assim sendo, é possível entender a razão pela qual os agostinhos assumem a comunhão de vida e, portanto, a vida comunitária como o seu primeiro apostolado: «Em primeiro lugar —já que com este fim vos congregastes em comunidade—, vivei unânimes na casa e tende uma só alma e um só coração orientados para Deus». Sob esta premissa, os serviços pastorais encomendados aos agostinhos são assumidos por todos os irmãos em estreita unidade e espírito de partilha. Desde a concepção agostiniana —como facilmente se deduz— não cabe o individualismo ou o «parcelamento» das missões, senão que a responsabilidade recai sobre a comunidade, bem como os seus possíveis frutos. A comunhão de vida ao estilo de Agostinho de Hipona revela-se, em definitiva, numa comunidade de verdadeiros amigos (vera amicitia) que, partilhando livremente a vida nas suas mais variadas formas e peculiaridades, luzes e sombras, virtudes e debilidades, procuram juntos a Deus e d’Ele dão testemunho ao mundo vivendo em concórdia e unanimidade (que não uniformidade). «A comunidade agostiniana está chamada a ser um sinal profético neste mundo, de modo que a sua vida fraterna seja fonte de comunhão e motivo de esperança». Em suma, e por último, longe de os separar dos demais irmãos em Cristo, a vida comunitária agostiniana funde os seus membros no mistério da Igreja sendo ela mesma imagem privilegiada da realidade eclesial e, alicerçada na unidade, converte-se em ícone da Trindade Santíssima. Assim mesmo, viver juntos sob um mesmo teto, partilhar o trabalho e inclusive o consenso nos assuntos gerais, não é suficiente para constituir uma comunidade religiosa que responda ao apelo de Santo Agostinho. É necessário saber e assumir que é Deus quem congrega, que é n’Ele que reside a razão e o fundamento da unidade dos irmãos — mais além das diferenças e contrastes —, que é Ele o garante do crescimento e desenvolvimento pessoal e comunitário e que, por último, é Deus a meta em direção à qual se dirige a peregrinação de todos e cada um. A vida comunitária agostiniana há de fomentar quotidianamente a consecução do ideal evangélico, não como algo a granjear num futuro mais ou menos remoto, mas antes como uma realidade a viver no presente e que, na pátria definitiva, alcançará a sua plenitude. Em consequência, a comunhão de vida continua a ser hoje como um espelho no qual olhar a coerência da vida dos agostinhos com respeito ao Evangelho e ao carisma recebido. É dela que «dimana o bom perfume de Cristo, fermento santo, testemunho convincente para a formação cristã dos fiéis e para a edificação da Igreja».
Serviço à Igreja e apostolado
A inícios do ano 391, Agostinho vê-se “obrigado” a assumir a responsabilidade do ministério sacerdotal em Hipona e, a partir deste momento, os problemas da «Católica» e o serviço pastoral da comunidade a ele confiada passam a ocupar um lugar de muita relevância na sua lista de prioridades. Aúna-se a este serviço a permanente disponibilidade a participar nas numerosas e, por vezes, intricadas controvérsias teológicas da época, defendendo sempre a Igreja com a eloquência da pluma e da palavra, do qual as suas obras são o melhor testemunho. Paulatinamente, o santo vai descobrindo que, se não é possível antepor os próprios interesses aos de Cristo, também não deverão primar as necessidades próprias sobre as da Igreja, Corpo Místico do Senhor e Mãe dos crentes. Tal convicção suporá para Santo Agostinho a entrada do princípio eclesial como critério de discernimento cristão. Esta disponibilidade e abertura eclesial do hiponense encontra um eco fiel e duradouro na família por ele fundada. Já nos seus inícios, após o recebimento das ordens sagradas por parte de Agostinho, as próprias comunidades abrem-se ao ministério ordenado e o binómio contemplação monacal e ação pastoral adquire um caráter de equilibrada normalidade. Mais tarde, aquando da organização jurídica da Ordem no século XIII e do seu reconhecimento por parte da Sede Apostólica, as exigências dos novos tempos e as características próprias do espírito mendicante sublinharam de forma ainda mais clara o generoso, constante e fecundo serviço eclesial das comunidades agostinianas, abertas a uma autêntica catolicidade que prime sobre todas as particularidades. Os agostinhos assumiram então uma posição de vanguarda como instrumento de renovação e santificação da Igreja, frente aos movimentos heréticos medievais e à própria decadência dos pastores. Posto isto, destacamos como características fundamentais do enfoque agostiniano acerca do serviço à Igreja a total disponibilidade na resposta às suas necessidades, por um lado, e a defesa fiel da Sede Apostólica, por outro.
No que ao apostolado se refere, Agostinho concede muita importância ao exemplo. Seguimento de Cristo e evangelização desde o próprio testemunho são uma e a mesma coisa, do qual se conclui que transparentar o que se recebe como dom do Espírito há de ter-se por obrigação. Seguimento sem testemunho desemboca em individualismo estéril, e testemunho sem seguimento redunda na mais inútil vacuidade. Procurando «tornar visíveis as maravilhas que Deus realiza na frágil humanidade das pessoas chamadas (…) com a linguagem eloquente de uma existência transfigurada, capaz de suscitar a admiração do mundo», o apostolado agostiniano consiste, portanto, «numa atividade externa que dimana de uma profunda vida interior e de uma sólida vida comunitária (…). Movidos pela caridade e as exigências da fraternidade, comunicamos a outros o que Deus se dignou realizar em nós e na nossa comunidade». Uma vez que o carisma fundacional estriba na verdadeira amizade, que se expressa primordialmente na comunhão de vida como primeiro apostolado, e que a disponibilidade à Igreja reclamada por Agostinho há de ser total, a Ordem tem assumido os mais diferentes serviços e missões apostólicas ao longo da sua história, num diálogo profícuo com o mundo e as especificidades próprias de cada época e contexto. Nos nossos dias, e a nível global, a presença agostiniana —masculina e feminina— manifesta-se no contexto missionário de evangelização, apoio e desenvolvimento de povos desfavorecidos e/ou oprimidos; no mundo do ensino, elementar e superior (colégios, institutos, universidades); no âmbito da cultura e da investigação científica (especialmente no campo filosófico-teológico) mediante a publicação de várias revistas e a administração de editoriais deste cariz; na regência e manutenção de santuários, lugares de peregrinação e centros de espiritualidade; e —como é o caso das comunidades presentes em Portugal— no serviço paroquial nas suas mais diferentes facetas.
No hodierno contexto ocidental —do qual Portugal não se exclui como excepção— onde se promove paradoxalmente ao uníssono o re-aproveitamento sustentável dos recursos e um «individualismo consumista e superficial», os egrégios benefícios da aldeia global e uma «globalização da indiferença», a impreterível defesa da igual dignidade entre todos os seres humanos e uma «cultura do descarte» feroz e perigosa, a espiritualidade agostiniana procura oferecer aos filhos deste tempo um eco fiel e coerente da Palavra Encarnada e Redentora, cujo mandamento novo e aglutinador radica no amor verdadeiro, na vera amicitia. Qualquer que seja a tarefa particular ou o contexto concreto no qual se encontrem, os agostinhos —clérigos, consagrados ou laicos— assumem a responsabilidade de «testemunhar aquela caridade calorosa, viva, visível, contagiosa da Igreja, através de uma vida comunitária que manifesta claramente a presença do Ressuscitado e do seu Espírito».
Formação e estudo
O quarto e último aspeto a destacar como nuclear da espiritualidade agostiniana é a formação e o estudo, entendido como amor sapientae. Santo Agostinho distingue entre sapientia e scientia: a sabedoria é o conhecimento intelectual do eterno e imutável, enquanto que a ciência é o conhecimento racional do mundo temporal e mutável. Por outras palavras, a ciência conhece coisas verdadeiras, enquanto que a sabedoria é o conhecimento da Verdade e o seu fim é a contemplação. Sem qualquer desdouro para com a ciência e a sua irrefragável importância, Agostinho considera superior a sabedoria, já que conduz o ser humano à sua meta última, isto é, a felicidade plena. Herdeira da incessante busca da Verdade por parte do Doutor da Graça, a Ordem agostiniana assumiu sempre com primazia, ao longo da sua pujante história, a presença no mundo da cultura e da investigação. Mais do que uma dedicação temporal, que se inscreve num determinado tempo mais ou menos efémero, o estudo há de encarar-se como «uma atitude permanente de reflexão sobre a realidade, de dúvida inteligente que é fonte de verdade, uma vontade de aprendizagem e a capacidade crítica frente ao acontecer histórico». Cientes de que «Deus está muito longe de odiar em nós essa faculdade pela qual nos criou superiores ao resto dos animais», os agostinhos assumem como missão, intrínseca à sua espiritualidade e à história da que são devedores, estabelecer, fomentar e privilegiar o tão necessário diálogo fé-cultura ou fé-razão especialmente posto em relevo pelo Concílio Vaticano II.
Queremos recordar, ainda, um elemento no qual se há de reconhecer uma característica peculiar, e quase diríamos, o engenho da Ordem Agostiniana; e é a aptidão para exercer o apostolado intelectual (…). Tal género de apostolado exige, ante tudo, fidelidade plena ao Magistério da Igreja e, ao mesmo tempo, abertura aos problemas do nosso tempo, que hão de estudar-se, tal como são em si mesmos, no quadro daquela síntese agostiniana que não vos pertence somente a vós, mas à Igreja e, atrevemo-Nos a acrescentar, à humanidade inteira. Trabalhai, pois, para favorecer os bons estudos, as publicações científicas, a investigação a nível superior, o desenvolvimento das disciplinas eclesiásticas: tudo isto deve constituir para vós um compromisso de honra, que invada, inspire e aperfeiçoe o próprio trabalho apostólico.
Como ocorre com os demais pilares apresentados, também o compromisso com o estudo se alicerça na vera amicitia, no carisma fundacional, apresentando por isso uma dimensão pessoal e outra comunitária. No que à dimensão pessoal diz respeito, o estudo abarca a formação integral dos irmãos e a especialização profissional nos campos mais adequados quer às capacidades de cada um, quer à premência em relação ao serviço eclesial ao qual é convocado, por outro. Enquanto à dimensão social e comunitária, a dedicação ao estudo permite um enriquecimento constante da Ordem enquanto família e um empenhamento responsável e rendoso na inculturação do Evangelho ao serviço do povo de Deus. «A preocupação por responder adequadamente aos problemas e angústias que inquietam os homens de cada época deve inspirar os nossos estudos». O cultivo do estudo e da formação é portanto encarado pelos agostinhos como um repto contínuo e permanente, já que num mundo em constante mutação e perante a necessidade de contribuir a uma «ecclesia semper reformanda», em palavras de Karl Barth, não são suficientes as meras pautas dos receituários pretéritos. Sem esta dimensão, tanto o serviço prestado à Igreja como o desenvolvimento pessoal dos evangelizadores acabariam comprometidos e certamente condenados à infecundidade, já que suporia prescindir do conhecimento e interpretação do passado, suspender o necessário e sério escrutínio sobre o presente e, o que é se cabe ainda mais infausto, renunciar ao juízo comprometido sobre as alternativas vitais para o futuro. Por conseguinte, todos os que de uma ou outra maneira, segundo o seu próprio estado de vida, tratam de viver o seguimento de Jesus Cristo no seio da Igreja da mão de Agostinho e da espiritualidade da Ordem, acolhem a indispensabilidade de uma formação integral na qual o estudo, movido pela sã inquietude e sedimentado na fé e no amor fraterno, detenta um role crucial.