Presença actual em Portugal

Transcorrem 140 anos desde a expulsão até ao regresso a Portugal dos frades da Ordem de Santo Agostinho, que tem lugar no marcante e inolvidável ano de 1974. Com efeito, e após a decisão do Capítulo Geral de 1971 de restaurar a Ordem em terras outrora tão fecundas, o Prior Geral Theodore Tack inicia o projeto. Assim sendo, os frades agostinhos tomam posse da sua “primeira” missão encomendada a 20 de janeiro de 74 na cidade da Guarda, com o beneplácito e inestimável colaboração do então Prelado da Diocese D. Policarpo da Costa Vaz, e vêem erigida canonicamente a sua comunidade no mês seguinte como parte da então Província do Santíssimo Nome de Jesus de Espanha, já extinta. Contrariamente ao perspectivado, esta primeira fundação via o seu ocaso poucos anos depois. Porém, em 1976 a Ordem abraça uma nova fundação, desta feita no Patriarcado de Lisboa e sob a jurisdição do Cardeal D. António Ribeiro. Esta comunidade assume então as paróquias de Arruda dos Vinhos e Sobral de Monte Agraço, ainda que com uma breve décalage de meses entre ambas as tomadas de posse. A regência destas duas paróquias perdurou até finais de 1992. Em 1986, e sob petição do Cardeal Patriarca de Lisboa, a Ordem assume a paróquia de Santa Iria de Azóia, concelho de Loures, onde estabelece uma comunidade de irmãos que, com a alteração paulatina e natural dos frades destinados, se mantém até aos nossos dias constituída por três frades. Já adentrado o século XXI, no ano 2004, é proposto à Ordem um novo destino: a paróquia de São Domingos de Rana, concelho de Cascais e parte da mesma diocese (Lisboa). Inicialmente atendida desde a comunidade de Santa Iria, estabelece-se uma nova comunidade em 2010, composta atualmente por quatro agostinhos. Ao longo deste último e atual percurso de restauração da Ordem de Santo Agostinho em Portugal, as comunidades têm suscitado entre o povo de Deus várias vocações à vida consagrada, tanto masculinas como femininas, ainda que de forma lenta e gradual, como sucede de resto com todas as demais famílias religiosas —grosso modo— que na Europa do novo Milénio tratam de propor o seguimento radical de Jesus Cristo através dos conselhos evangélicos. 


Ao longo destas quase cinco décadas de história recente, o carisma e espiritualidade agostinianos encarnaram-se na vida, presença e trabalho de mais de uma trintena de agostinhos que pela «ocidental praia lusitana» passaram anunciando a «beleza sempre antiga e sempre nova» de Jesus Cristo. Fiel às suas origens e briosa legatária dos antigos, a presença agostiniana em Portugal tem-se destacado mormente pela vida em comum e o trabalho em equipa, desenvolvido em estreita sintonia com os prelados diocesanos e os superiores da Ordem. Apesar dos tempos convulsos que caracterizaram o Portugal renascido nos albores dos anos 70 que acolheram a restauração da Ordem, a vivência e partilha deste estilo próprio de seguimento de Jesus Cristo no seio da Igreja tem dado desde então os seus frutos que hoje, volvido pouco menos de meio século, são notórios. Sem considerar nada como próprio e propalando a interioridade, a formação e a verdadeira amizade como bússola do Evangelho, os agostinhos têm conferido a todo o seu trabalho pastoral —sobretudo nas variadas facetas do âmbito paroquial— o cunho recebido do Bispo de Hipona, sem descurar nunca as particularidades de cada tempo. 


A dedicação ao acompanhamento dos jovens, «o agora de Deus», tem sido assumida como prioridade. Fruto deste empenho, surge em janeiro de 1990 a Juventude Agostiniana Portuguesa (JAP) por iniciativa dos próprios jovens e sob o lema «um só coração e uma só alma orientados para Deus». Trata-se de uma associação juvenil de caráter religioso, sem fins lucrativos, com reconhecimento civil, e cuja finalidade é a vivência e anúncio da fé cristã segundo o carisma da Ordem de Santo Agostinho. A JAP —que atualmente se compõe de quase duas centenas de associados— guia-se por um itinerário formativo que, alicerçado nos pilares da espiritualidade agostiniana (interioridade, comunidade, compromisso e formação), procura oferecer aos seus jovens uma formação integral, humana e religiosa. Seguindo as etapas vitais do Bispo de Hipona, o percurso delineado pelos agostinhos para esta associação juvenil consta de quatro etapas, todas elas vividas em grupo trás a celebração dos sacramentos de iniciação e a devida preparação catequética, sempre acompanhadas por um irmão agostinho em reuniões semanais: Quaseciaco, que denomina a etapa que antecede a entrada oficial do grupo na associação, na qual os jovens são especialmente incentivados a participar nas várias atividades realizadas  ao mesmo tempo que se abeiram do carisma e da espiritualidade; Cassiciaco que, recebendo o nome do local onde Agostinho funda a primeira comunidade de amigos, constitui uma etapa de três anos nos quais se procura criar um vínculo especial entre os membros do grupo, aprofundando o conhecimento próprio à luz de Deus assim como o discernimento vocacional, e iniciar o processo formativo filosófico-teológico, logicamente adaptado à faixa etária à que se destina; a etapa mais longa da formação denomina-se Inquietudes e, herdando o nome da alocução agostiniana presente no inicio das Confissões — «fecisti nos ad te et inquietum est cor nostrum, donec requiescat in te»—, dá continuidade ao processo formativo, cada vez mais unido ao compromisso para com a associação, a comunidade paroquial e a sociedade civil, e sustentado por uma vida espiritual mais profunda; por último, a Comunidade Juvenil Agostiniana procura encarnar a verdadeira comunhão de vida idealizada e vivida por Agostinho, adaptada ao estilo e exigências próprios da vocação laical, através da continuidade da formação —humana, religiosa e agostiniana—, sob o enfoque dos novos desafios laborais, familiares, etc. Por outro lado, cabe sublinhar que a JAP também se caracteriza pela sua implicação comprometida na vida paroquial: muitos dos seus membros assumem a vocação de catequista, tratando de transmitir às gerações vindouras com o seu próprio testemunho a riqueza da vida em comunhão com Cristo na Igreja ao «jeito» de Agostinho; preparam-se e realizam-se atividades para a catequese, como é o caso do «Acampamento Tagaste»; desde vertente sócio-caritativa das paróquias, os jovens implicam-se também com afinco, levando a cabo ações de voluntariado e iniciativas de solidariedade.


Uma vez terminado este processo, inicia-se uma nova etapa de vida pessoal e, naturalmente, também pastoral. Desde antanho, e especialmente desde o estabelecimento dos conventos nos centros urbanos, as Ordens religiosas agregaram à sua composição a tradicionalmente denominada «terceira ordem», isto é, homens e mulheres laicos que, vivendo a sua consagração batismal em plenitude e fiéis à sua vocação própria, se aderem a um determinado carisma e espiritualidade. Estes grupos de laicos que entram a formar parte da Ordem de Santo Agostinho através de um compromisso perante o Superior Geral recebem o nome de «Fraternidades Seculares Agostinianas». Com um itinerário próprio de formação que delineia um percurso comum e assistidos por um religioso agostinho, as Fraternidades tratam de abraçar a vocação universal à santidade através da vivência comprometida do Evangelho ao estilo de Santo Agostinho «no século, isto é, empenhados em toda a qualquer ocupação e actividade terrena e nas condições ordinárias da vida familiar e social, com as quais é como que tecida a sua existência». Como verdadeiros membros da Ordem, os membros das Fraternidades sentem-se chamados por Deus a concorrer para a «a santificação do mundo a partir de dentro, como o fermento, e deste modo manifestem Cristo aos outros, antes de mais, pelo testemunho da própria vida, pela irradiação da sua fé, esperança e caridade». Atualmente, a Ordem em Portugal conta com três Fraternidades já instituídas e duas em processo de constituição.


Em suma, a espiritualidade agostiniana é vivida no seio das comunidades paroquiais, impregnando todos os projetos empreendidos pelos agostinhos. Assim, e desde as mais variadas facetas paroquiais, têm-se estabelecido ao longo dos anos outros grupos marcadamente agostinianos, dos quais destacamos de forma especial a «Comunidade de Oração ‘Mães Mónicas’». Trata-se de uma comunidade de mães que, a exemplo de Santa Mónica (mãe de Santo Agostinho) que suplicou perseverante e confiadamente a Deus pela conversão de Agostinho, rezam diariamente pelos seus filhos, pelos jovens e pelas vocações à vida religiosa e sacerdotal. Organizadas em sub-grupos de sete mães, nos quais cada uma se responsabiliza por um dia da semana, acompanham-se mutuamente nas suas alegrias e desventuras, ao mesmo tempo que procuram assistir especialmente as que, por virtude da idade avançada ou das circunstâncias familiares, se encontram mais solitárias e desamparadas. A comunidade (todos os grupos) reúne-se mensalmente e, com a ajuda de um dos agostinhos, desenvolvem temas de formação (religiosa e agostiniana) e atividades de enriquecimento pessoal e comunitário. 


Num mundo complexo e desafiante, no qual os valores cristãos parecem esbater-se por entre modas e perigosos movimentos pendulares, a espiritualidade agostiniana ergue-se nos nossos dias como prova visível de que é possível viver o Evangelho hoje, aqui, agora e, sobre tudo, juntos. Uma comunidade de verdadeiros amigos (vera amicitia) que procura a Deus através da comunhão de vida alicerçada na interioridade, na oração, no estudo, e feita serviço na disponibilidade às necessidades da Igreja é hoje, como o foi desde Santo Agostinho, «lugar da presença do Ressuscitado».


(Vós, Agostinhos) sabeis bem que as comunidades de pessoas consagradas são lugares nos quais se pretende viver a experiência de Deus a partir de uma forte interioridade e em comunhão com os nossos irmãos. Este é o primeiro desafio fundamental que as pessoas consagradas enfrentam e que hoje desejo confiar-vos em particular: fazer juntos a experiência de Deus para poder mostrar Deus a este mundo de modo claro, corajoso, sem concessões nem hesitações. É uma grande responsabilidade! (…) ‘A comunidade, que guarda os pequenos detalhes do amor e na qual os membros cuidam uns dos outros e formam um espaço aberto e evangelizador, é lugar da presença do Ressuscitado que a vai santificando segundo o projeto do Pai’. (Papa Francisco)

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