Ao contemplar o testemunho dado por São Lucas nos Atos dos Apóstolos acerca da primeira comunidade cristã — que Agostinho encontra condensado na afirmação «a multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma» (At 4,32) — e ao incorporá-lo ao prelúdio da sua Regra, o Doutor da Graça acrescenta à sentença neotestamentária a expressão in Deum, «em direção a Deus, orientado para Deus», frequente —ainda que não constante— nos seus escritos. Para uma melhor compreensão desta adição cunhada por Agostinho, será proveitoso esclarecer, ainda que brevemente, o uso da preposição latina in em vez de ad. Ao dissertar acerca da teologia da graça, Agostinho declara que, sem o auxílio da graça divina, o homem não pode converter-se a Deus (ad Deum) nem avançar em Deus (proficere in Deum). A diferença estriba em que a primeira ação —converter-se a Deus (ad Deum)— implica uma simples aproximação por parte de quem se encontra longe, enquanto que avançar em Deus (in Deum) implica adentrar-se n’Ele, penetrar no seu Mistério. «Não é o mesmo conhecer a casa onde vive a pessoa que procuramos e cumprimentá-la de passagem no limiar da porta, do que ser admitido na casa e conviver ali com o seu proprietário». Em consequência, a expressão in Deum que se une à divisa lucana «um só coração e uma só alma» não deve ser entendida como a audaz busca de um desconhecido, mas sim como procura de um Deus que se desvela como e por amor adentrando-se em si mesmo, vivendo n’Ele e com Ele, experimentando o seu amor de Pai e devolvendo-lhe o justo amor de filho. A procura de Deus é, por conseguinte, apresentada por Agostinho como basilar no estilo de vida cristã que propõe. Esta busca torna-se o eixo nevrálgico da comunidade agostiniana em tanto que todos os irmãos, na singularidade de cada um, abraçam este mesmo projeto através do método proposto e vivido pelo fundador: a interioridade e vida de oração. Depois de várias e tortuosas estratégias para encontrar a tão ansiada Verdade, Agostinho encontra-a (Cristo Verdade) em si mesmo, «interior intimo meo et superior summo meo». São sobejamente conhecidas as palavras do santo:
Todos os aspectos da espiritualidade agostiniana estão, naturalmente, interligados entre si e se constituem como interdependentes. A expressão in Deum aparece precedida do preceito «anima una et cor unum». À luz do Evangelho, a interioridade ou a vida oração não encontrarão fecundidade se não se apoiam no amor mútuo: «se fores, portanto, apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois, volta para apresentar a tua oferta» (Mt 5,23-24); «Se alguém disser: ‘Eu amo a Deus’, mas tiver ódio ao seu irmão, esse é um mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê» (1 Jo 4, 20). A vida em comum, entendida por Agostinho como antecipo da união plena e definitiva em Deus e caminho dirigido à conformação do Christus totus, «é o eixo em torno ao qual gira a vida religiosa agostiniana: comunidade de Irmãos que vivem unânimes na casa, tendo uma só alma e um só coração, procurando juntos a Deus e dispostos ao serviço da Igreja». Desta forma, a comunidade e todos os seus membros partilham a inquietude pela busca de Deus, e colocam em comum tantos os bens espirituais como materiais.
A inícios do ano 391, Agostinho vê-se “obrigado” a assumir a responsabilidade do ministério sacerdotal em Hipona e, a partir deste momento, os problemas da «Católica» e o serviço pastoral da comunidade a ele confiada passam a ocupar um lugar de muita relevância na sua lista de prioridades. Aúna-se a este serviço a permanente disponibilidade a participar nas numerosas e, por vezes, intricadas controvérsias teológicas da época, defendendo sempre a Igreja com a eloquência da pluma e da palavra, do qual as suas obras são o melhor testemunho. Paulatinamente, o santo vai descobrindo que, se não é possível antepor os próprios interesses aos de Cristo, também não deverão primar as necessidades próprias sobre as da Igreja, Corpo Místico do Senhor e Mãe dos crentes. Tal convicção suporá para Santo Agostinho a entrada do princípio eclesial como critério de discernimento cristão. Esta disponibilidade e abertura eclesial do hiponense encontra um eco fiel e duradouro na família por ele fundada. Já nos seus inícios, após o recebimento das ordens sagradas por parte de Agostinho, as próprias comunidades abrem-se ao ministério ordenado e o binómio contemplação monacal e ação pastoral adquire um caráter de equilibrada normalidade. Mais tarde, aquando da organização jurídica da Ordem no século XIII e do seu reconhecimento por parte da Sede Apostólica, as exigências dos novos tempos e as características próprias do espírito mendicante sublinharam de forma ainda mais clara o generoso, constante e fecundo serviço eclesial das comunidades agostinianas, abertas a uma autêntica catolicidade que prime sobre todas as particularidades. Os agostinhos assumiram então uma posição de vanguarda como instrumento de renovação e santificação da Igreja, frente aos movimentos heréticos medievais e à própria decadência dos pastores. Posto isto, destacamos como características fundamentais do enfoque agostiniano acerca do serviço à Igreja a total disponibilidade na resposta às suas necessidades, por um lado, e a defesa fiel da Sede Apostólica, por outro.
O quarto e último aspeto a destacar como nuclear da espiritualidade agostiniana é a formação e o estudo, entendido como amor sapientae. Santo Agostinho distingue entre sapientia e scientia: a sabedoria é o conhecimento intelectual do eterno e imutável, enquanto que a ciência é o conhecimento racional do mundo temporal e mutável. Por outras palavras, a ciência conhece coisas verdadeiras, enquanto que a sabedoria é o conhecimento da Verdade e o seu fim é a contemplação. Sem qualquer desdouro para com a ciência e a sua irrefragável importância, Agostinho considera superior a sabedoria, já que conduz o ser humano à sua meta última, isto é, a felicidade plena. Herdeira da incessante busca da Verdade por parte do Doutor da Graça, a Ordem agostiniana assumiu sempre com primazia, ao longo da sua pujante história, a presença no mundo da cultura e da investigação. Mais do que uma dedicação temporal, que se inscreve num determinado tempo mais ou menos efémero, o estudo há de encarar-se como «uma atitude permanente de reflexão sobre a realidade, de dúvida inteligente que é fonte de verdade, uma vontade de aprendizagem e a capacidade crítica frente ao acontecer histórico». Cientes de que «Deus está muito longe de odiar em nós essa faculdade pela qual nos criou superiores ao resto dos animais», os agostinhos assumem como missão, intrínseca à sua espiritualidade e à história da que são devedores, estabelecer, fomentar e privilegiar o tão necessário diálogo fé-cultura ou fé-razão especialmente posto em relevo pelo Concílio Vaticano II.